Yoga: relato de um iniciante

Iniciei a prática do Yoga há pouco mais de dois meses, depois de me cansar de entabular a milésima conversa com Thiago em que externava o desejo de trabalhar meu corpo segundo esta sabedoria oriental e, de maneira meio queixosa, nem sequer passar da intenção. À sua pergunta, simples e direta: “Por que então você não já procurou um centro de prática próximo ao seu trabalho?”, respondi com o quase imediato agendamento de uma aula experimental num estúdio de Yoga que fica a poucos metros do local onde trabalho.

Fiz a primeira aula assustado feito uma criança aprendendo a falar uma língua estranha em meio a adultos fluentes. Achava que qualquer posição que fizesse ou tentasse fazer pareceria ridiculamente errada e imprópria. Suei mais pelo constrangimento social do que propriamente pelo esforço físico. Eu mal sabia, mas este momento já se dava o que pra mim é a lição mais importante da prática. Fazendo uma interpretação muito pessoal e totalmente livre de embasamento técnico, o Yoga é um caminho de autoconhecimento em que aperfeiçoamos nossa relação interna e também com o mundo e os outros seres. Os praticantes que dividiam a sala comigo não estavam particularmente interessados na execução dos meus movimentos pois estavam muito ocupados com a sua própria prática.

O Yoga não tem nada a ver com a exibição de ousadas posturas em meio a cartões postais no Instagram legendadas com #gratidão. Na verdade, os exercícios posturais (Ásanas) compõem apenas um dos estágios do Yoga. Eu só fiquei sabendo através do meu instrutor que a estrutura disciplinar do Yoga se organiza nos oito passos (Ashtanga) a seguir:

  •         Yama – Princípios éticos
  •         Niyama – Princípios de conduta
  •         Ásana – Posturas
  •         Pranáyama – Exercícios respiratórios
  •         Pratiahára – Domínio dos sentidos
  •         Dharaná – Concentração
  •         Dhyana – Meditação
  •         Samadhi – Iluminação

Os exercícios posturais do Yoga têm me ajudado muito a trabalhar minha aguda autocrítica e a (menos intensa mas ainda presente) importância à opinião dos outros sobre minha presença no mundo. Por limitações de flexibilidade e de fortalecimento muscular, ainda estou bem longe da perfeição na execução de boa parte das séries de Ásanas passadas até o momento pelo meu instrutor, mas tenho gostado de conviver com esta imperfeição e chego a ver graça, beleza e acolhimento neste caminho.

Isto é definitivamente algo que posso levar para a vida. Fico pensando nas oportunidades que temos de utilizar as imperfeições e as dificuldades do cotidiano como balizadoras do caminho rumo à melhor versão que podemos ser para nós mesmos e para os outros. Este processo não precisa ser necessariamente frustrante ou doloroso.

Quando, numa das aulas, fiz cara de dor ao tentar reproduzir um Ásana, meu instrutor me advertiu que eu deveria retroceder um pouco pois um dos princípios do Yoga é não causar dano ou sofrimento aos outros e a si mesmo. E continuou, dizendo que se eu permanecesse numa posição de tensionamento com leve desconforto, isto seria suficiente para que eu evoluísse na postura com o tempo. E eu, que sempre que posso busco paralelismos filosóficos nas situações que vivencio, saí com o mantra que tenho me repetido em várias ocasiões:

“dê o seu melhor,

busque o aperfeiçoamento, mas seja gentil consigo mesmo,

abrace suas limitações, mas não estacione no conforto

e, por último, foque em sua própria prática e não meça seus resultados a partir dos outros

cada um sabe onde dói e está todo mundo tentando

seja gentil e pratique

pratique e seja gentil.”

Adonis Carvalho

Escrevo uns rabiscos desde que me lancei na aventura de procurar me entender neste mundo, prática que me fez sobreviver aos intervalos tediosos das aulas de Cálculo na Faculdade de Engenharia. Vi toda minha vida se transformar desde que decidi dar o primeiro tímido passo rumo a uma dieta alimentar saudável. Meu interesse pela culinária natural é uma reação aos sustos que tomava quando passei a ler com atenção os rótulos dos ultra processados multicoloridos dos supermercados. Acredito na força e na beleza da vida e amo profunda e verdadeiramente este planeta Terra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *