Vivendo com os nativos durante a Transiberiana

Vivendo com os nativos durante a Transiberiana

Em meados de agosto, em pleno verão russo, eu concluí a viagem de trem mais longa do mundo: a clássica e original Transiberiana em seus 9259 km de Moscou a Vladivostok. Um antigo sonho de mochileira realizado.

Há quem faça esta viagem sem paradas durante sete dias. Eu, particularmente, não acho interessante e preferi fazer pausas para explorar algumas cidades e conhecer a diversidade russa através da convivência com os moradores locais.

Já escrevi dois textos sobre esta experiência única:

Principal lição do caminho de ferro transiberiano
10 curiosidades sobre o que observei pela janela, dentro do trem e nas plataformas

Aqui, compartilharei como foi o meu convívio com os nativos em cada parada.

Quem acompanha a minha viagem de volta ao mundo, sabe que o foco está na Educação e Sustentabilidade. E mesmo com essa pausa que dei nas visitas às escolas e nos trabalhos voluntários, foi possível experienciar os dois temas durante o longo percurso cruzando toda a Rússia.

Especialmente pela forma de hospedagem que escolhi: o Couchsurfing, uma ferramenta gratuita que, na minha opinião, é um dos exemplos mais bem-sucedidos de compartilhamento entre uma comunidade global composta por 14 milhões de pessoas em mais de 200.000 cidades. Uma prática exemplar da sustentabilidade social cujo pilar principal é a confiança entre “estranhos”, ou melhor, amigos que ainda não conhecemos.

Além de economizar e ser sustentável, eu tive a rica oportunidade de conhecer e viver a verdadeira cultura local. Não aquela preparada especialmente para os turistas, que muitas vezes não condiz com a realidade.

Aproveitando o tema turístico, quando eu estava pesquisando as possibilidades de roteiro, encontrei pacotes exorbitantes oferecidos pelas agências de viagem que variavam de 3,5 a 6 mil euros. Para fazer o mesmo percurso, com as mesmas paradas, não gastei nem 300 euros. Pasmem!

Os principais motivos da economia foram: 1) comprar as passagens por conta própria diretamente no site oficial da companhia de trem da Rússia; 2) hospedar-me gratuitamente utilizando o Couchsurfing conforme mencionado; e 3) ter os nativos como guias (também gratuito).

Paguei absurdamente menos e ainda ganhei vários bônus, que compartilho a seguir:

1) Yekaterinburg

Yekaterinburg

Vadim é um engenheiro espacial que trabalha no aeroporto da cidade que divide a Rússia entre os continentes europeu e asiático. Ele aceitou prontamente o meu pedido de hospedagem. No entanto, como eu cheguei durante a madrugada, preferi hospedar-me em um hostel próximo à estação de trem (já que seu apartamento fica na região do aeroporto). Mas a minha escolha não o impediu de me oferecer uma caminhada pelos seus lugares preferidos na cidade. Sua paixão pela arte e cultura enriqueceram as quase quatro horas explorando a região central a pé.

2) Krasnoyarsk

Krasnoyarsk

Imagine um presente em dose tripla. Foi o que a cidade de Krasnoyarsk me ofereceu. Uma anfitriã siberiana, amante da Índia, que atua como guia turística todo fim de semana em uma caverna, abriu as portas de sua casa para mim e para um argentino que também está viajando pelo mundo. Mesmo dormindo no trabalho, Tamara confiou plenamente em nós deixando a chave do apartamento conosco. O bônus dessa passagem pela cidade que abriga o Parque Nacional mais visitado da Rússia foi ter a companhia do hermano Santiago e a feliz coincidência de conhecer um casal de primos siberianos (Dima e Natasha) que nos convidou para fazer uma caminhada pelo centro da cidade sob o olhar de um professor de história local, que fez questão de pagar o nosso almoço no final do dia.

3) Irkutsk

Irkutsk

Vera e Vadim são um casal muito especial que representa essencialmente os valores do Couchsurfing. Eles receberam-me em sua casa de estilo asiático, sem cama, cadeiras, com uma decoração muito peculiar. O principal diferencial deste casal foi se adaptar à minha rápida passagem pela região (apenas dois dias) para me oferecer uma experiência inesquecível no maior lago do mundo, o Baikal. Eles fizeram isso por puro prazer, sem a mínima pretensão de receber nada em troca. Vadim, que além de pesquisador e professor universitário é guia nas horas vagas, estava se recuperando de uma cirurgia de extração de um dos sisos e, mesmo com dores, passou dois dias me apresentando o lado não turístico do lago e o centro histórico de Irkutsk, seguindo o roteiro especial montado por sua atenciosa e introvertida esposa Vera.

4) Vladivostok

Vladivostok

Tatiana já hospedou mais de 200 viajantes de 35 cidades em 3 anos. Amante da língua espanhola e grávida do seu segundo filho, pretende ter o bebê na Argentina. O detalhe é que ela vai sozinha para a América do Sul em novembro, dois meses antes da criança nascer, enquanto o marido permanece na Rússia cuidando da filha de sete anos. Ela pretende passar toda a sua licença maternidade na Argentina utilizando o Couchsurfing com um bebê recém-nascido. Que coragem e desprendimento!

Presenteou-me com um belíssimo pôr-do-sol na baía próxima à sua casa e respeitou a minha necessidade de descanso, após duas semanas cruzando o país de trem. Ah! Ela foi me buscar na estação do trem recebendo-me com um abraço caloroso na porta do vagão.

Se você ainda não se jogou no mundo ou não abriu as portas da sua casa para ele, o meu incentivo é: crie um perfil agora no Couchsurfing e experimente o que é viajar de forma econômica e retribuir esse benefício a viajantes de todos os continentes. Basta ter um sofá ou um espaço no chão da cozinha. Se os siberianos que vivem em uma das regiões mais frias do mundo mostraram que é possível, você brasileiro(a) que é conhecido(a) universalmente pelo calor humano vai tirar de letra! Só não esqueça de voltar aqui e me contar como foi a primeira experiência. Estarei em algum “sofá” do mundo esperando. 😉

Vanessa Tenório

Carioca, viajante, amante da natureza e das crianças, educadora designer de sustentabilidade e autora do blog Voe Nessa, encerrei um ciclo de 22 anos de carreira no sistema corporativo para dar volta ao mundo sozinha, pesquisando e desenhando uma Nova Educação para a Sustentabilidade. Meu planejamento é explorar os cincos continentes através da imersão em escolas inovadoras e comunidades sustentáveis e co-criar uma escola gratuita quando voltar ao Brasil.


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