Veganismo

Há quase três anos, meio que coincidindo com o momento em que passamos a morar juntos, Thiago e eu decidimos parar de consumir carnes de qualquer animal que não peixe ou fruto do mar. Para ser sincero, a única motivação por trás dessa decisão era de experimentação. Eu sou capaz de dar um testemunho completo sobre como a adoção de uma rotina alimentar mais consciente pode desencadear uma série de outras transformações benéficas à nossa saúde que não se limitam ao corpo físico, e, por isso mesmo, sempre que posso me submeto a testes alimentares para avaliar seus efeitos sobre minhas emoções. Eu achei que era só mais um desses testes.

Apesar de não ter estipulado um prazo para voltar a ingerir carnes, encarei o processo todo com uma dose até certo ponto saudável de transitoriedade. E Thiago, mesmo que eu tivesse deixado claro que não me incomodaria caso ele optasse por continuar a comer bicho, quis entrar no barco de prova também. Ele vinha de uma temporada de aproximadamente 1 mês junto a seus familiares no interior de São Paulo, onde havia churrasco num dia e no outro também, e aproveitou o ensejo para, em suas próprias palavras, desintoxicar.

Só depois desse processo todo de escolhas, conscientes ou não, é que fomos parar para pesquisar alternativas realistas para seguirmos uma rotina alimentar sem carne e, ainda assim, saborosa e devidamente abastecida de todos os nutrientes de que nosso corpo precisa para funcionar bem.

Quando ovos, leite animal e seus derivados ainda faziam parte da nossa dieta, compensávamos a  ausência das bandejas de frango com hormônios no carrinho de compras com pacotes e mais pacotes de muçarela, parmesão e gorgonzola. Mesmo nessa época, experimentávamos alguns dias intercalados em que não ingeríamos nenhum alimento de origem animal e podíamos notar um aumento significativo da nossa disponibilidade de energia física e mental. Desse ponto, seguiu-se um caminho muito natural que percorremos até percebermos que consumíamos quilos de queijo por mês apenas por um automatismo irrefletido. De fato, não precisávamos daquilo.

O impulso final que nos faltava para assumirmos uma dieta alimentar estritamente vegetariana veio do documentário “Terra”, sobre o qual ainda falaremos aqui. Ficamos especialmente impactados com este trecho do documentário:

“A vaca, mas também a cabra, se tornaram máquinas sintetizadoras de matéria-prima. De um lado injetamos água e forragem. Do outro saem 700 milhões de toneladas de leite por ano.

O animal sofre, mas é preciso produzir mais, e o mercado compra mais barato. A automação reduz os custos de mão de obra. Ela separa ainda mais os homens dos animais.

Quero comer carne. Mas prefiro não ver que devemos matar o animal. Então eu fecho os olhos.

A cada ano o homem mata e corta 60 bilhões de animais. 60 bilhões de vidas, quase dez vezes a população humana. Em um só ano.(…) O trabalho da morte está otimizado. É um matadouro monumental.(…) O oficial de abate é sofrido, então tentamos não pensar muito sobre ele. O gesto do operário é isolado da sequência que poderia dá-lo significação. Não matamos mais, apenas apertamos um botão. Não cortamos um porco, separamos uma peça. No final não comemos mais animais. Comemos escalopes, bifes, pedaços…peças anônimas, como se a vida nunca houvesse existido.”

Quando, mesmo não comendo carnes, ainda financiávamos o mercado de laticínios, no fundo fazíamos vista grossa à realidade que era esfregada na nossa cara: a carne pendurada no açougue vinha do mesmo lugar daquele pote de requeijão no refrigerador do mercado, ou seja, uma indústria que se apropria, explora, marca a ferro e humilha os animais, deixando a pegada cruel do desmatamento, exaurindo milhares de km² de terras agricultáveis para produzir ração e ainda poluindo o ar atmosférico e as reservas de água doce do planeta.

Vale a pena parar uns minutos pra pensar como chegamos a um ponto em que, nessa sociedade em que vivemos, é aceitável esquartejar bois e porcos e dispor seus pedaços em bandejas de isopor nos supermercados e ao mesmo tempo é tão difícil tolerar que se faça o mesmo com cães e gatos, por exemplo. Eu olho nos olhos do Odara, nosso adorável cão de companhia, e vejo a mesma vida complexa e sensível que há nas vacas e nas galinhas, mas havia passado boa parte da minha existência aceitando a morte em série destes bichos.  

Depois de 1 ano e meio seguindo uma dieta estritamente vegetariana, nunca nos faltou sabor na mesa e vigor nos braços. É claro que a transição exigiu de nós uma remodelagem da logística de abastecimento da despensa e da geladeira e também de preparação das refeições do dia-a-dia, mas hoje a dinâmica caminha quase que por si só.

Em vez de quilos de carne com hormônio e litros de sangue escorrendo na pia, uma infinidade de grãos, cereais, legumes, hortaliças e condimentos afastam definitivamente nosso cotidiano alimentar da monotonia e ainda trabalham pela nossa saúde.

Boa parte da nossa missão aqui é mostrar que esta transição está mais acessível do que suspeitamos e que uma vida sem os produtos derivados da indústria da tortura animal pode ser mais saborosa, saudável, benéfica pro meio ambiente e, ao contrário do que às vezes se ouve por aí, muito mais barata.

Adonis Carvalho

Escrevo uns rabiscos desde que me lancei na aventura de procurar me entender neste mundo, prática que me fez sobreviver aos intervalos tediosos das aulas de Cálculo na Faculdade de Engenharia. Vi toda minha vida se transformar desde que decidi dar o primeiro tímido passo rumo a uma dieta alimentar saudável.Meu interesse pela culinária natural é uma reação aos sustos que tomava quando passei a ler com atenção os rótulos dos ultra processados multicoloridos dos supermercados.Acredito na força e na beleza da vida e amo profunda e verdadeiramente este planeta Terra.

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