Um pouco mais de paciência

Há pouco mais de 1 ano, como parte de uma mudança radical de estilo de vida, transferimos nossa residência para um local mais tranquilo. E todo mundo sabe que em qualquer metrópole brasileira, um local mais tranquilo é, salvo raríssimas exceções, sinônimo de beeem afastado do Centro. Mal sabia eu que no pacote das desejadas mudanças viria também um treinamento árduo de cultivo de paciência.

Acontece que continuo me locomovendo diariamente, indo / vindo do Centro para casa por motivos de trabalho. O meu tempo de trajeto casa / trabalho, então, multiplicou-se por 4, aproximadamente, já contando as baldeações necessárias. Esse sempre foi o principal ponto de aflição quando Thiago e eu tentávamos balancear as vantagens e desvantagens da mudança. Minha experiência com longas esperas e processos muito demorados já davam pistas de que a coisa toda se configuraria em um baita desafio com que deveria lidar de segunda a sexta.

Como as vantagens todas venceram com boa margem, no final decidimos pela mudança. E para não enfartar na primeira semana no novo endereço, procurei assimilar a dinâmica de locomoção diária como um exercício de paciência. Não vou negar que às vezes fico irritado com os engarrafamentos e a sensação desesperadora de nunca chegar em casa após um dia exaustivo de trabalho, mas o exercício que me propus é de não resistir à irritação; apenas a observo. Até onde ela quer me levar? O que quero fazer com o tempo que teria a mais em casa? Seria realmente bem utilizado ou serviria para eu vagar errante pelas redes sociais deitado no sofá? Se eu me irritar agora, poderei abrir os caminhos do trânsito?

Se extrapolarmos esta situação para outras circunstâncias da vida, perceberemos que a paciência tende a escapar quando vemos nossos desejos não atendidos no tempo que desejamos. Mas na maioria da vezes, perder a paciência não significa que o problema estará resolvido. Se assim o fosse, não veria ganhos em me propor a cultivá-la.

Longe de ser sintoma de prostração de forças, a paciência é a sabedoria presente nos momentos em que nos incomodamos com alguma situação:

– Se podemos fazer algo, por que a aflição? Se não podemos fazer algo, por que a aflição?

Se o fato de eu ficar impaciente dentro do ônibus me deixasse 30 minutos mais cedo em casa, eu toparia deixar a paciência de lado por uns instantes. Mas isso não acontece. Por outro lado, todas as vezes em que me mantive paciente em alguma situação embaraçosa, pude ter maior clareza para ajudar a mim e a outros. Nesse processo de observar os movimentos da minha mente, tenho cada vez mais me convencido de que a paciência é um ótimo negócio, rendendo gordas receitas em autocuidado, lucidez e apreciação.

Este texto também pode te ajudar nesse caminho de aprendizado diário: Yoga: relato de um iniciante.

Adonis Carvalho

Escrevo uns rabiscos desde que me lancei na aventura de procurar me entender neste mundo, prática que me fez sobreviver aos intervalos tediosos das aulas de Cálculo na Faculdade de Engenharia. Vi toda minha vida se transformar desde que decidi dar o primeiro tímido passo rumo a uma dieta alimentar saudável. Meu interesse pela culinária natural é uma reação aos sustos que tomava quando passei a ler com atenção os rótulos dos ultra processados multicoloridos dos supermercados. Acredito na força e na beleza da vida e amo profunda e verdadeiramente este planeta Terra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *