Saboaria Artesanal: a alquimia do sabão

Saboaria Artesanal: a alquimia do sabão

Hoje vamos mergulhar numa arte que tanto me encanta, a saboaria, ou melhor, a saboaria artesanal natural e vegetal, para ser bem mais específica. Me diga honestamente se você sabe diferenciar um sabão natural, totalmente vegetal, produzido manualmente através de técnicas ancestrais, de outro que é produzido industrialmente utilizando diversas substâncias químicas sintéticas? Se sua resposta é não, é porque, infelizmente, você ainda não teve o prazer de tomar um delicioso banho com um sabão genuinamente artesanal e vegetal, pois mesmo com toda explicação que virá adiante, a grande diferença só pode ser sentida na pele. Te desafio a se permitir ter essa experiência.

A alquimia da saboaria tem início na mistura de uma parte de substância gordurosa que contém cadeias de ácidos graxos (como as encontradas nos óleos e nas manteigas vegetais) e outra parte de uma solução básica (alcalina), que pode ser obtida ao se misturar água com hidróxido de sódio (soda cáustica), hidróxido de potássio ou outra base, ou ainda usando cinzas tal como nossos ancestrais faziam. A partir dessa mistura é que acontece a reação química de nome saponificação, onde são formadas as moléculas de sabão e de glicerina que darão vida e estrutura ao verdadeiro sabão. Vale ressaltar que os sabões produzidos a partir de base glicerinadas, os conhecidos sabões de glicerina, não se enquadram como produto da saboaria artesanal, afinal utilizam um componente previamente processado.

Essa aulinha de química pode até ter soado como um revolucionário método da fabricação de sabão, mas a verdade é que se trata de uma técnica dominada pela humanidade há milênios! Historiadores apontam o ano de 2800 a.C. como a data aproximada do mais antigo registro do uso de um produto que se assemelha ao nosso atual sabão, uma pasta feita com gordura animal e cinzas, ou seja, o mesmo princípio da união de ácidos graxos em solução álcali.

Aleppo, cidade Síria, o berço da saboaria vegetal

O tradicional sabão de Aleppo é originário e produzido na cidade de mesmo nome desde os anos de 1100 d.C.. Nesta região que conhecemos hoje em dia como Síria é preservada a receita original, composta por puro azeite de oliva e óleo de baga de louro. Na época das grandes Cruzadas, os guerreiros que faziam o caminho da Europa para Terra Santa paravam estrategicamente em Aleppo para se banhar. Surpresos com a qualidade do famoso sabão 100% vegetal, eles foram os responsáveis por levar este produto à Europa, onde até então só se produzia sabão a partir de gordura animal. Devido à dificuldade de se ter baga de louro na região que hoje é a Espanha, eles iniciaram a fabricação de um novo sabão com a receita adaptada, usando somente azeite de oliva. Nesse contexto foi criado o igualmente famoso sabão de Castela.

Dois séculos mais tarde, na cidade de Marselha, na França, foi criada uma nova versão usando 72% de azeite de oliva e 18% de óleo de coco. Nascia assim outro ícone da saboaria, o desejadíssimo sabão de Marselha. Interessante observar que, mesmo com o passar de muitos séculos, essas três tradicionais receitas da saboaria artesanal se mantém como patrimônio cultural das regiões que representam e continuam a ser reproduzidos por saboeiros em toda a esfera terrestre.

Tradição x Indústria

Agora você já está por dentro da história da saboaria artesanal, já sabe que se trata de uma técnica milenar, mas aí você pode me dizer: “mas Charlene, estamos em pleno século XXI, a revolução industrial ocorreu há 200 anos e a indústria farmacêutica está cada vez mais forte e moderna na nossa sociedade, pra que eu iria me interessar por um sabão produzido com uma técnica tão antiga?” Esse é o ponto que eu citei lá no início: essa real diferença você só sentirá na pele. Mas mesmo só por escrito (por enquanto), insisto em esclarecê-los da diferença chave entre os produtos encontrados no mercado.

Os sabonetes comuns que vemos facilmente nas farmácias e supermercados são repletos de substâncias químicas sintéticas derivadas do petróleo. Sua base gordurosa para a reação da saponificação geralmente é de origem animal, um subproduto baratíssimo da indústria da carne. O grande lance da indústria farmacêutica para diminuir bastante o custo de seu produto final foi fazer a separação da parte sabão da parte glicerina resultantes do processo de saponificação. Com isso, eles vendem e utilizam a glicerina em produtos mais nobres enquanto os sabonetes ficam apenas com a parte sabão, ou seja, agem como um detergente apenas para limpeza, que por sinal é bem agressiva à nossa pele. Estes não possuem propriedades hidratantes e nutritivas para a nossa pele, ao contrário do que acontece com os maravilhosos sabões artesanais.

Sabonetes artesanais da VIDA BIOCOSMÉTICOS

Você já sentiu sua pele repuxar após o banho? Você precisa utilizar hidratante e óleo pós-banho senão fica com a pele sem viço e rachada? Pois bem, isso acontece justamente porque seu sabonete é um agente de limpeza agressiva e não contém ingredientes umectantes. Assim você pode até achar que compra sabonete barato, mas fica escravo de cremes e óleos pseudohidratantes, que são produzidos com petrolatos e óleos minerais que não são saudáveis para a nossa pele, criando apenas uma camada isolante sem proporcionar a ação hidratante que prometem e que você de fato merece.

Então agora você pensa: “se é a glicerina que hidrata, então começarei a usar apenas sabonetes glicerinados, correto?” Errado! Pois ao isolar a glicerina do sabão para poder revender e incluir glicerina em demais produtos, esta passa por um processo de clarificação em que são adicionados aditivos sintéticos para aumentar sua conservação e facilitar seu manuseio. Por isso, as bases glicerinadas encontradas para produzir aqueles artesanatos de sabonete bem decorativos ou ainda o sabonete de glicerina encontrado nas farmácias, não possuem a qualidade da glicerina presente num sabão produzido pelo método de saponificação a partir de insumos vegetais não refinados.

Nesse momento você pode até estar confuso e duvidar dessas afirmações, então irei te propor um teste. Aquele teste inicial para você sentir essa diferença na pele. Tenha em casa um sabonete em barra de cada tipo mencionado aqui. Pegue um sabonete industrial, que pode até ser aquele que diz ter ¼ de hidratante, um sabonete glicerinado e um sabonete artesanal feito por saponificação – atentem que este seja saponificado e não que tenham usado base pronta. Use cada um por dois ou três dias e perceba a sensação da espuma de cada um, qual a sua sensação durante o banho e como sua pele estará após cada banho. E tenha certeza que você correrá sérios riscos de sair desse teste como mais um apaixonado e fiel à saboaria artesanal.

Deu bossa! Saboaria artesanal e as riquezas da mata brasileira

Para finalizar, é importante citar o quanto somos privilegiados por ser saboeiras ou consumidores de sabão artesanal no Brasil, afinal nossas matas biodiversas nos fornecem alguns preciosos insumos que só podem ser encontrados por aqui.

VIDA BIOCOSMÉTICOS

Da Amazônia temos o óleo de Pracaxi e de Açaí, as manteigas de Tucumã e Murumuru dentre tantas outras. O cupuaçu, também encontrado no nosso Nordeste, e a manga nos fornecem manteigas hiper condicionantes. Do Cerrado vem o rico óleo de Buriti, que além de diversas vitaminas também garante uma linda cor avermelhada. Além dos tradicionais óleos de coco, encontrados em grande parte do nosso litoral, e o azeite de oliva, já produzido no Sul do nosso Brasil.

Isso tudo sem precisar entrar no mérito dos aditivos, que são as ervas, argilas e óleos essenciais que, quando adicionados aos, sabões garantem maiores propriedades tópicas e terapêuticas.

Com toda essa variedade de insumos conseguimos formular diferentes produtos para atender às diversas necessidades da nossa pele e cabelos. Isso mesmo, cabelo! Legal compreender que na saboaria não há muita distinção entre sabão, sabonete e xampu. Na verdade, tudo se resume ao mesmo produto: o sabão. Converse com a saboeira de sua confiança para assim escolher o produto mais adequado para você!

Charlene Andrade

Como uma autêntica geminiana, a curiosidade é o que me move. Engenheira mecânica de formação, venho atravessando um processo de transição e renascimento, a partir do qual floresceram a vegetariana, a permacultora, a pesquisadora em agricultura sustentável e ambiental e a produtora de cosméticos naturais. Sentindo que era necessário partilhar esse belo caminho, recentemente dei vida, literalmente, a uma das minhas paixões e criei a Vida Biocosméticos, espaço dedicado ao mundo da cosmética artesanal em respeito ao meio ambiente, aos animais, ao comércio justo, à saúde do nosso corpo e de Gaia – Mãe Terra.


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