Relacionamentos

Eu fui um adolescente romântico. Tive um blog até os vinte e poucos anos, onde deixava, pelo menos uma vez por semana, registros lacrimosos de paixões platônicas, trechos de baladinhas de amor ou projeções de um futuro pleno e imensamente feliz quando, enfim, alguém me amasse e eu amasse de volta, e na mesma proporção, esse alguém. Enquanto isso, a Vida (assim, com V maiúsculo mesmo) ria com condescendência, respeitando o tempo que as lições mais profundas são tomadas.

As telenovelas e os filmes de Hollywood têm grande parcela de culpa nessa historinha que a gente gosta de contar para nós mesmos e que invariavelmente começa com uma paixão à primeira vista arrebatadora, passa pela fase de atrair todos os olhares do mundo para o casal tão incrível e especial, que se completa e personifica o amor na Terra, para então culminar numa vida estável a dois, casa ampla, filhos saudáveis e vários cachorros.

A gente não percebe mas essa narrativa não inclui verdadeiramente o outro. O que se quer é, individualmente, ser feliz, se sentir pleno e, assim, chegar ao que se chama de uma vida significativa. Nessa historinha, o outro assume uma coadjuvância e isso, em questão de meses ou anos, pode transformar a vida do casal dos sonhos num inferno. O que era um bosque florido onde nascia uma declaração de amor a cada minuto, agora é um campo minado de onde não saem frases do tipo “odeio você“ ou “não sei o que tinha na cabeça quando me casei com você“, não fica assim tão claro, mas essa conversão de intenção emocional é a gente querendo culpar o outro por ter falhado na missão de nos fazer feliz.

Acontece que ninguém além de nós mesmos pode assumir a responsabilidade pela nossa felicidade. Não há metade da laranja que irá nos completar e tornar nossas vidas um jardim perene de rosas orvalhadas. Foi quando percebi isso que mudei minha forma de conceber um relacionamento amoroso. Não pode haver condição aqui. Você ama o outro de maneira genuína e, num processo muito natural, deseja fazê-lo feliz em vez de entregar a ele a missão de aplacar todas as nossas dores.

O bom do amor prescinde dos dramas de folhetim. Sua força e magnitude se apresentam quando se coloca em prática a arte de amar sem se sentir dono do outro e sem empreender tremendo esforço para fazê-lo caber nos nossos sonhos. O bom do amor é celebrar a expansão e a felicidade individuais do parceiro. Um encontro amoroso é um encontro de potências de pessoas já plenas. Duas pessoas se amam, se respeitam, compartilham as mesmas visões de mundo e topam caminhar juntas no mesmo sentido da evolução pessoal. A trajetória assim, compartilhada, fica mais agradável. E a parceria justifica sua existência pelo tempo em que a brincadeira permanecer prazerosa para ambos.

Adonis Carvalho

Escrevo uns rabiscos desde que me lancei na aventura de procurar me entender neste mundo, prática que me fez sobreviver aos intervalos tediosos das aulas de Cálculo na Faculdade de Engenharia. Vi toda minha vida se transformar desde que decidi dar o primeiro tímido passo rumo a uma dieta alimentar saudável. Meu interesse pela culinária natural é uma reação aos sustos que tomava quando passei a ler com atenção os rótulos dos ultra processados multicoloridos dos supermercados. Acredito na força e na beleza da vida e amo profunda e verdadeiramente este planeta Terra.

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