Partiu feira!

No final do ano passado, Thiago e eu resolvemos escrever as nossas aspirações para 2018 num painel bem visível aqui em casa. Na lista de tarefas e desejos, incluímos a ida frequente à feira de orgânicos que rola semanalmente aqui perto de onde moramos, na região oceânica de Niterói (RJ). Além dos benefícios à nossa saúde pessoal trazidos pelo consumo de alimentos frescos, colhidos de uma terra que não padece do uso abusivo de defensivos agrícolas, estabelecer relações de consumo em feiras de produtores locais traz pelo menos mais duas vantagens. A primeira é o reconhecimento do trabalho nobre que é cuidar de todo o ciclo de vida de uma planta para nos alimentar; numa relação de compra e venda com quem realizou este trabalho, temos a oportunidade de reconhecer este valor com os nossos corações e bolsos. A outra, mais subjetiva, diz respeito ao aprendizado que podemos adquirir num diálogo, por mais breve que seja, com quem se relaciona de modo íntimo com a terra.

Numa dessas idas à feira, fomos apresentados à taioba, vegetal que de cara nos chamou a atenção pela imponência de suas folhas. A taioba é um exemplo de PANC (Planta Alimentícia Não Convencional), que, colocando em termos bem reduzidos, é uma planta que cresce de forma espontânea (geralmente considerada uma erva daninha), mas que tem alto potencial nutritivo e só não é consumida em grande escala por falta de conhecimento ou hábito. Além da taioba são alguns exemplos de PANCs: capuchinha, trevo, ora-pro-nobis, peixinho, caruru e urtiga mansa. 

A maravilhosa taioba acompanhada de uma viçosa rama de cenouras

Fizemos a taioba refogada com bastante alho e cebola e juntamos cenouras (com a rama), também adquiridas na feirinha. Em outra oportunidade compramos peixinho, outra PANC, mas atacamos o prato antes de pararmos para pensar num registro fotográfico.

Taioba refogada com cenoura e suas folhas (delícia!)

Se vocês tiverem a oportunidade de ir a alguma feira de produtores locais perto de onde moram ou trabalham, recomendamos fortemente que deem uma passada lá com a cabeça aberta. De preferência, vão com um carrinho ou uma sacola reutilizável para dispor os vegetais fresquinhos e deliciosos diretamente neles e assim eliminar a utilização daqueles saquinhos de plástico asfixiantes da seção de hortifruti dos supermercados.

Uma dica legal para saber a feira de produtores locais mais próxima é utilizar o Mapa de Feiras orgânicas, uma ferramenta de busca idealizada pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) cujo principal objetivo é estimular a alimentação saudável em todo o Brasil e mostrar que os produtos orgânicos podem ser mais acessíveis aos consumidores. Acessando o portal, me animei e aplaudi de pé o seguinte trecho da seção que explica o porquê da existência da ferramenta:

O Mapa visa encurtar o caminho do consumidor até o produtor para ampliar o acesso aos alimentos orgânicos.

Com base em uma pesquisa realizada pelo Idec em 2012, muitos consumidores prefeririam orgânicos se eles fossem mais baratos e se houvesse mais canais de comercialização próximos de suas residências.

Contudo, em uma pesquisa de preço realizada pelo Instituto em 2010, foi constatado que os alimentos orgânicos eram bem mais caros nos supermercados em comparação com as feiras. Mais recentemente, em um levantamento realizado durante todo o ano de 2016, pelo Instituto Terra Mater e o Instituto Kairós, o preço de uma cesta de 17 produtos orgânicos estava, em média, cerca de 50% mais barato nas feiras do que nos supermercados.

Além de fazer uso desta incrível ferramenta, uma dica mais comportamental é realmente educarmos nossos sentidos para rastrear as feiras que podem existir nos nossos arredores e sequer suspeitamos. Nem sempre o grupo de produtores agrícolas que já dispensa o uso de defensivos sintéticos em suas culturas vai ter a grana e o tempo necessários para se lançarem na saga burocrática que deve ser o processo de obtenção do selo oficial de produtor orgânico. A feirinha aqui perto de casa, por exemplo, não está no circuito oficial de orgânicos, mas é formada por um grupo maravilhoso de produtores da região serrana do Rio que dominam com maestria as técnicas da agroecologia e oferecem semanalmente produtos fresquinhos, deliciosos e livres de veneno.

Vamos todos à feira, gente! Faz um bem danado conversar com quem coloca as mãos na terra para encher nossos pratos de comida de verdade. O aprendizado e as possibilidades de novos sabores e cores estão todos lá naquelas barraquinhas de madeira rústica esperando para nos surpreender.

Adonis Carvalho

Escrevo uns rabiscos desde que me lancei na aventura de procurar me entender neste mundo, prática que me fez sobreviver aos intervalos tediosos das aulas de Cálculo na Faculdade de Engenharia. Vi toda minha vida se transformar desde que decidi dar o primeiro tímido passo rumo a uma dieta alimentar saudável. Meu interesse pela culinária natural é uma reação aos sustos que tomava quando passei a ler com atenção os rótulos dos ultra processados multicoloridos dos supermercados. Acredito na força e na beleza da vida e amo profunda e verdadeiramente este planeta Terra.

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