Olfato: o sentido reprimido

Olfato: o sentido reprimido

Há poucos dias, iniciei a leitura do livro da Palmira Margarida sobre Perfumaria Ancestral, e eu, que, de forma instintiva, sempre busco por técnicas e manuais, me deparei com um livro poético e repleto de história sobre os aromas e, principalmente, sobre a relação das mulheres com os aromas. Confesso que o sentimento de decepção durou pouquíssimos segundos, apenas o suficiente para completar a leitura de uma página, e mal consigo expressar quanta curiosidade e fascínio essa leitura está causando em mim. Na verdade, o envolvimento foi tanto que me fez viver dias explorando meu olfato de uma forma diferente, dando a atenção merecida a esse sentido que é tão reprimido e me deixando com um enorme desejo de compartilhar essa primeira impressão com vocês.

Uma pequena compreensão sobre a fisiologia do nosso sistema olfativo já nos faz entender o quão complexo e poderoso este sentido é. Nossa cavidade nasal é composta por milhões de células sensoriais e neurorreceptoras que fazem uma ligação direta com o sistema límbico, que é responsável pelo sentimento, emoções e memórias. Por isso, o olfato é um sentido primitivo, que está além do nosso controle. Ele não passa pelo lado racional do cérebro, não controlamos o ato de cheirar ou não, e ainda, não controlamos as emoções e memórias que vem à tona após a percepção de um aroma.

Continuando nessa analogia do sentido primitivo, a Palmira usa um verbo que pode até “cheirar” estranho de início: ela diz que somos farejadores. O ato de farejar nos aproxima com o ser animal e primitivo que habita cada um de nós. O “farejar” nos torna descobridores, alquimistas, poetas, curandeiras, afinal, o nosso corpo se comunica conosco também pelo aroma que ele exala. Portanto, o cheiro do nosso hálito, urina, suor, fezes e menstruação é uma forma do nosso organismo se comunicar e dar uma resposta sobre o seu funcionamento.

Você se cheira com frequência? Reconhece o seu aroma? Neste momento, chegamos ao porquê de dizer no título que o olfato é o sentido reprimido. Reprimido por quê? E por quem? Ele vem sendo reprimido pela sociedade por séculos, especialmente após o iluminismo, onde a sociedade patriarcal teve sua ascensão e o racional tomou o lugar do saber intuitivo. As bruxas e as curandeiras eram mulheres farejadoras, detinham a sensibilidade de usar o poder das plantas, e, sabem por que em especial todas eram mulheres? Nós mulheres temos cerca 1 milhão de neurônios olfativos a mais que os homens, por isso somos um ser intuitivo e de poder farejador. Entretanto, numa certa etapa da história, ao perceber e temer esse poder feminino, o olfato foi adormecido, calado, subjulgado, ou pior, julgado como impróprio e feio.

“Não meta o nariz onde não foi chamado” ou “isso não está cheirando bem” são exemplos de como a sociedade reprime o sentido olfativo. Outra questão diz respeito à descoberta dos aromas sintéticos, que tem um custo bem menor que os aromas naturais, e, por isso, começaram a ser usados demasiadamente, mascarando nosso aroma natural e doutrinando nosso olfato para o comercial e socialmente aceitável.

Ao estudar aromaterapia, percebemos que nosso corpo se comunica conosco através dos aromas dos óleos essenciais. As plantas aromáticas produzem os aromas como mecanismo de defesa ou para atrair polinizadores. Essas substâncias químicas agem também em nosso organismo das mais diferentes formas. A lavanda nos tranquiliza, o alecrim nos dá foco, o ylang-ylang deixa nossa sensualidade aguçada e a tangerina vem trazer alegria. Sabemos quais os aromas que mais precisamos simplesmente pela intuição e afinidade ao inalar suas notas aromáticas. O prazer desse ato é uma resposta do nosso corpo e por isso o conhecimento sobre os aromas e a magia das plantas aromáticas é um processo de autocuidado e autoconhecimento de nosso corpo físico e espiritual. Por isso sugiro que todos comecem a dar mais atenção ao seu instinto farejador, se conhecendo melhor e despertando a curandeira e os verdadeiros aromas que exalam de todas as partes do nosso corpo.

Fontes de pesquisa/conhecimento:

A Perfumaria Ancestral: Aromas Naturais no Universo Feminino. Palmira Margarida. Rio de Janeiro: Memória Visual, 2018.

Curso Introdução à Aromaterapia. Renate Tirler. Aroma de Flor Terapias Alternativas. Rio de Janeiro, 2018.

Curso Avançado de Aromaterapia. Renate Tirler. Aroma de Flor Terapias Alternativas. Rio de Janeiro, 2018.

Curso Psicoaromaterapia. Renate Tirler. Aroma de Flor Terapias Alternativas. Rio de Janeiro, 2018.

LYRA, Cassandra Santantonio de. A aromaterapia científica na visão psiconeuroendocrinoimunológica: Um panorama atual da aromaterapia clínica e científica no mundo e da psiconeuroendocrinoimunologia. Dissertação de Mestrado para o Instituto de Psicologia da USP. 2009.

Charlene Andrade

Como uma autêntica geminiana, a curiosidade é o que me move. Engenheira mecânica de formação, venho atravessando um processo de transição e renascimento, a partir do qual floresceram a vegetariana, a permacultora, a pesquisadora em agricultura sustentável e ambiental e a produtora de cosméticos naturais. Sentindo que era necessário partilhar esse belo caminho, recentemente dei vida, literalmente, a uma das minhas paixões e criei a Vida Biocosméticos, espaço dedicado ao mundo da cosmética artesanal em respeito ao meio ambiente, aos animais, ao comércio justo, à saúde do nosso corpo e de Gaia – Mãe Terra.


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