Educação para a Sustentabilidade nas propostas dos dois candidatos a Presidente

Quem acompanha os meus textos na coluna Pelo Mundo em parceria com a Broto sabe que estou em uma jornada de cinco anos em benefício da Educação para a Sustentabilidade. E mesmo distante, é impossível não me envolver com a situação política atual do Brasil. Até porque o meu sonho pessoal de co-criar uma escola transformadora está em jogo, já que pretendo retornar ao país em 2022, quando o candidato eleito a Presidente estará em seu último ano do primeiro mandato.

No primeiro texto que escrevi por aqui, compartilhei como tenho explorado diferentes lugares através das quatro dimensões da sustentabilidade: social, ecológica, econômica e visão de mundo (um alerta sutil para quem associa sustentabilidade apenas à ecologia ou ao meio ambiente).

Também já fiz uma breve introdução sobre os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela agenda mundial da Organização das Nações Unidas (ONU).

O objetivo deste texto é comparar as propostas dos dois candidatos à Presidência da República do Brasil sobre o tema da minha pesquisa pelo mundo: Educação para a Sustentabilidade.

Recentemente, fiz uma comparação geral em meu blog pessoal:

O que os dois candidatos à Presidência do Brasil propõem para a Educação?

Leia também:

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Como os candidatos à presidência tratam os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU

A análise apresentada a seguir foi baseada nas propostas oficiais disponibilizadas no site do Tribunal Superior Eleitoral e no modelo de Educação Gaia reconhecido pela UNESCO. Antes de expor o resultado, ressalto que o meu posicionamento é técnico enquanto Pesquisadora, Educadora e Designer de Sustentabilidade.

Candidato Jair Bolsonaro

Infelizmente, a palavra “sustentabilidade” não aparece nenhuma vez no plano de governo do candidato do PSL. Já o termo “sustentável” é citado uma vez na proposta de mudanças para a agricultura (página 67).

Considerando que muitos associam Sustentabilidade ao Meio Ambiente, foquei também na palavra-chave “ambiental” que aparece apenas em um exemplo sobre a temática energia (página 71), quando uma crítica é feita às últimas gestões sobre as “pequenas centrais hidrelétricas que têm enfrentado barreiras quase intransponíveis no licenciamento ambiental”; e no termo “meio ambiente” que também é mencionado somente uma vez no mesmo parágrafo da nova estrutura federal agropecuária proposta (página 67).

Por não conseguir acreditar (e aceitar) que um candidato à Presidência de uma país tão rico e diverso quanto o Brasil não aborde o tema Sustentabilidade em seu programa de governo, decidi fazer uma análise nas entrelinhas dos itens relacionados à Educação, foco deste texto:

– Incluir os profissionais de educação física no programa de Saúde da Família, com o objetivo de ativar as academias ao ar livre como meio de combater o sedentarismo e a obesidade e suas graves consequências à população como AVC e infarto do miocárdio.

Associo este objetivo à dimensão visão de mundo como “saúde pessoal”.

– Fomentar o empreendedorismo para que o jovem saia da faculdade pensando em abrir uma empresa.

Apesar de não estar claro o tipo de empresa, incluo este item na dimensão social como “empoderamento pessoal e habilidade de liderança”.

Com muito esforço e boa vontade, foi o máximo que consegui enquadrar na roda de sustentabilidade.

Candidato Fernando Haddad

Com um certo alívio, informo que a palavra “sustentabilidade” foi mencionada 11 vezes no plano de governo do candidato do PT. Para efeitos de comparação, seguindo os mesmos critérios pesquisados na proposta do candidato anterior, o termo “sustentável” foi citado 21 vezes, “ambiental” 37 vezes e “meio ambiente” 5 vezes. É notório que tive mais trabalho nesta análise e, para preservar a igualdade, apresentarei também apenas os objetivos relacionados à área de Educação.

No item 5. TRANSIÇÃO ECOLÓGICA PARA A NOVA SOCIEDADE DO SÉCULO XXI, Haddad apresenta um subitem com objetivos específicos para a Educação Ambiental.

Na introdução sobre o tema, ele afirma que a transição ecológica é uma dimensão estratégica de seu plano porque mobiliza temas estruturais de um país que se prepara para a nova sociedade do século XXI, prezando pela garantia e soberania dos bens compartilhados pelo povo brasileiro: natureza, ar, água, cultura e os espaços públicos.

Acrescenta que vai introduzir uma agenda estratégica de transição ecológica, que colocará as políticas ambientais, territoriais, regionais, produtivas, tecnológicas, científicas e educacionais como aliadas e como instrumentos para construir as bases para um Brasil do futuro mais próspero, mais inovador e sem pobreza. E que esta transição ecológica só será plena se estiver ancorada na democracia, na soberania nacional e na efetividade dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais de todos, sobretudo dos povos do campo, das florestas e das águas, e na igualdade plena das mulheres, da juventude e das negras e negros em todos os aspectos da vida.

Item 5.6 NOVA GOVERNANÇA PARA A TRANSIÇÃO ECOLÓGICA

Ressalta que tem autoridade e experiência para construir um novo pacto social pela transição ecológica, que integre as forças sociais no campo e na cidade comprometidas com essa agenda. Para isso, realizará a Conferência da Terra para reunir diversos setores da sociedade na discussão sobre as múltiplas dimensões e sentidos da transição ecológica, no intuito de construir consensos à altura dos desafios que virão.

Segundo o candidato do PT, as mudanças climáticas representam um grande desafio para o planeta. Com esse programa, o Brasil poderá liderar pelo exemplo e atuará para uma governança global efetiva dos bens públicos ambientais. As respostas brasileiras ao Acordo de Paris e à Agenda 2030 e seus 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) se tornarão referências para outros países em desenvolvimento.

O governo Haddad também proporá a criação de um Fundo de Adaptação dos países da América Latina e do Caribe para apoiar países da região a enfrentar desastres climáticos. Além disso, atuará para fortalecer a cooperação Sul-Sul em mitigação e adaptação, buscando integrar mercados para gerar demanda e escala suficientes para impulsionar os novos mercados bens e serviços sustentáveis. Observando os princípios da solidariedade internacional e das responsabilidades comuns mas diferenciadas, promete atuar para garantir que as nações mais desenvolvidas cumpram com seus compromissos de facilitar e de garantir a transferência de tecnologias de baixo carbono, capacitação e acesso a financiamento de baixo custo aos países em desenvolvimento.

Item 5.6.1 EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Segundo Haddad, a transição ecológica pressupõe uma consistente política pública de educação ambiental. Os processos educadores ambientalistas devem estar no coração do governo e perpassar todas as políticas públicas e formas de atuação do Estado brasileiro junto à sociedade.

Reitera que a transversalidade da temática exigirá uma política de educação ambiental permanente, continuada e articulada com a totalidade da sociedade brasileira, e que sem participação social não há educação ambiental.

Declara ainda que o governo retomará as ações de educação ambiental implementadas desde 2003 e desenvolverá uma estratégia nacional de educomunicação socioambiental e de programas voltados a escolas, instituições e territórios sustentáveis, inclusive programa de formação de educadores/as ambientais comprometidos com a transição ecológica. Apoiará também os Estados, o DF e os Municípios na formulação e implantação de políticas de educação ambiental, envolvendo universidades, escolas e demais órgãos públicos, redes, movimentos sociais e toda a sociedade civil organizada.

Fonte: Pixabay

O programa do Haddad não é perfeito. Todavia, apresenta indicadores de avanço para o tema. É difícil pensar em Educação para Sustentabilidade com um programa de governo proposto por Bolsonaro. Não se trata de empatia ou antipatia, apoio ou renegação, mas sim do conteúdo técnico apresentado. Eleger o programa do candidato do PSL é estagnar ou retroceder.

Diante do exposto, você enquanto cidadã e cidadão brasileiro pretende contribuir de que forma neste processo eleitoral? Votando para estagnação/retrocesso ou avanço? O futuro de uma Educação Sustentável está em suas mãos.

Leia mais:

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Vanessa Tenório

Carioca, viajante, amante da natureza e das crianças, educadora designer de sustentabilidade e autora do blog Voe Nessa, encerrei um ciclo de 22 anos de carreira no sistema corporativo para dar volta ao mundo sozinha, pesquisando e desenhando uma Nova Educação para a Sustentabilidade. Meu planejamento é explorar os cincos continentes através da imersão em escolas inovadoras e comunidades sustentáveis e co-criar uma escola gratuita quando voltar ao Brasil.

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