De turista a exploradora

De turista a exploradora

Durante muitos anos, eu me incluí no grupo da grande maioria dos viajantes que associa suas viagens de férias ao turismo. Fazia numerosas pesquisas em busca de dicas imperdíveis, listas do que fazer em cada cidade, onde ficar e comer, quando e como ir, etc, etc, etc.

O planejamento era uma loucura, a execução cansativa e, às vezes, frustrante (principalmente quando eu não conseguia dar o famoso check “✓” na minha lista, ou quando a tal dica imperdível não atendia à minha expectativa depois de passar horas em filas gigantes).

Estava num ciclo vicioso gastando energia, tempo e dinheiro, seguindo padrões que nem sempre estavam alinhados ao estilo de viagem que eu sonhava, mesmo quando o foco era o ecoturismo.

O objetivo deste texto não é ser mais um guia de viagens, muito menos uma crítica a quem curte ser turista. Mas sim compartilhar minhas recentes experiências, que podem não ter nenhuma relação com seus interesses, gostos, preferências e prioridades.

Viajando sozinha pelo mundo desde março de 2017, aprendi que é possível viajar sem seguir padrões impostos pelas agências de turismo ou por viajantes mais experientes.

Parei de pesquisar e planejar e hoje sou livre para explorar o mundo através das quatro dimensões da sustentabilidade de forma espontânea e orgânica

1) Dimensão Social

A primeira mudança significativa foi na escolha do tipo de hospedagem. Geralmente, não fico mais em albergues, hostels ou campings como antes. A base da minha viagem é a cooperação e tenho usado o Couchsurfing ou minha rede de contatos para acomodar-me na casa de moradores locais. Na maior parte do tempo, vivo em ecovilas como residente voluntária.

Couchsurfing na Alemanha

O melhor de tudo é que faço amizades com os locais, que me apresentam a cidade com o olhar nativo, sem filas, muvucas nem competição para tirar a melhor foto.

Este novo estilo de hospedagem me permite conhecer a região sem mapa nem lista do que fazer. Quando estou sozinha, costumo sair para caminhar sem destino e naturalmente sou atraída pelos pontos que tenho interesse, onde posso explorá-los no meu tempo. É libertador!

2) Dimensão Ecológica

Aprendi a pedir carona, a caminhar ou usar a bicicleta (emprestada) ao invés do transporte público e, automaticamente, reduzi a minha emissão de CO2. É claro que ainda uso ônibus, trem, barco ou avião para mudar de cidade ou país, mas dou preferência às opções ecologicamente amigáveis para movimentar-me localmente.

Meus hábitos alimentares também mudaram. Raramente vou a restaurantes. Costumo carregar uma marmitinha com quitutes de minha preferência preparados com itens frescos e, quando a fome bate, me jogo na grama de qualquer parque ou praça para fazer aquele piquenique saudável para o corpo e a mente. Prefiro provar as guloseimas típicas da região nas feiras locais comprando direto do pequeno produtor.

Piquenique celebrando o Midsommar na Suécia

As roupas e acessórios que tenho usado foram doados ou comprados em lojas de segunda mão por um preço irrisório.

Tento priorizar atividades externas e gratuitas, especialmente na Natureza, mesmo com o mau tempo. Os escandinavos me ensinaram que não existe tempo ruim, mas sim roupa inadequada.

3) Dimensão Econômica

Com essas mudanças de hábito, tive uma redução significativa no meu orçamento de viagem. Estou bem abaixo da média diária de 20 euros estipulada para um mochilão na Europa.

Amor em ação em uma Biblioteca da Escócia

Tenho também vivenciado a economia colaborativa atuando como voluntária. Recebo acomodação e alimentação em troca de algumas horas de serviço. Aqui eu compartilho meus principais aprendizados no voluntariado e aqui como celebrei um ano sem chaves.

É claro que, no meu caso, pedi demissão para ter a liberdade de explorar o mundo dessa maneira. Se eu ainda estivesse imersa no ambiente corporativo, talvez eu não tivesse energia para trabalhar algumas horas como voluntária nos meus únicos 30 dias de descanso anual.

4) Dimensão Visão de Mundo

É a parte mais gratificante da jornada. Vivo uma cultura diferente a cada mês. Aprendo diretamente na fonte com os locais. Saboreio a comida caseira, brinco com as crianças, converso e jogo com os adolescentes, faço parte da família e da rotina diária, conheço os vizinhos e a história da comunidade, vou às festas regionais, danço as músicas típicas (às vezes com trajes especiais emprestados), aprendo um pouco do idioma, desconstruo paradigmas respeitando a diversidade. Sou uma pessoa muito mais evoluída fora da bolha do turismo.

Cerimônia do Fogo na Inglaterra

Esta foi a vida saudável, consciente e feliz que escolhi para os próximos quatro anos, tendo em vista que já completei um. Saí do Brasil com o planejamento de viajar durante cinco anos, um em cada continente, visitando escolas inovadoras e projetos sustentáveis.

Viajo com propósito e não como turista, apesar de às vezes visitar locais turísticos (como o famoso jardim de tulipas da Holanda, sonho de infância de uma borboleta).

Nos próximos textos, pretendo compartilhar o meu olhar diferenciado sobre os países que tenho visitado. Seguimos juntos mesmo diferentes!

Vanessa Tenório

Carioca, viajante, amante da natureza e das crianças, educadora designer de sustentabilidade e autora do blog Voe Nessa, encerrei um ciclo de 22 anos de carreira no sistema corporativo para dar volta ao mundo sozinha, pesquisando e desenhando uma Nova Educação para a Sustentabilidade. Meu planejamento é explorar os cincos continentes através da imersão em escolas inovadoras e comunidades sustentáveis e co-criar uma escola gratuita quando voltar ao Brasil.


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