Das delícias de viajar

Muita gente coloca as viagens no topo da lista de hobbies e metas de vida. Vivemos tempos em que ostentar um passaporte preenchido com carimbos multi continentais pode garantir mais likes do que um extenso currículo de educação formal que inclui mestrado, MBA, pós-doc e certificados de proficiência em 3 idiomas diferentes, incluindo o mandarim. Eu sempre gostei de viajar e de todas as etapas envolvidas nesse jogo: o planejamento do roteiro, a arrumação das malas, os devaneios durante o trecho de ida (quando tudo é pura expectativa feliz), a coleção de experiências de vida memoráveis e, por fim, o balanço das lições aprendidas no caminho de volta.

Nosso hábito de fazer comparações, estabelecer rankings e atribuir comendas diferenciadas aos indivíduos com melhor performance, fez também do ato de viajar uma métrica de vida plena e feliz. Não basta viajar. Tem que viajar todo ano. Tem que ser de avião. Tem que ser para um país estrangeiro. Tem que tirar foto e escolher o filtro meticulosamente antes de postar nas redes sociais. Virou um dever.

Sempre que sinto alguma tendência em cair nessa jogatina sedutora e ardilosa, me convido a relembrar sobre o que me motiva deixar por um tempo os ares da cidade em que vivo. Particularmente acredito que sair da minha bolha de realidade e enxergar o mundo sob outra perspectiva é uma das ferramentas de autoconhecimento mais poderosas.

Quando estamos em outro ambiente naturalmente prestamos mais atenção à beleza intrínseca da vida que, no calor da rotina atribulada, passa despercebida. Quem nunca passou horas em um café charmoso na esquina de uma outra cidade, achando mó barato passar horas ali, apenas tomando expresso, comendo biscoitinhos, ouvindo música ambiente, e se surpreendeu ao descobrir, depois do retorno de viagem, um café da mesma franquia dando sopa bem ali, numa das esquinas da cidade em que mora?

É um barato ver como outras pessoas, com os mesmos medos e desejos que a gente, levam suas vidas em outras circunstâncias e limitações geográficas, culturais e sociais. É sempre um choque positivo viajar para algum lugar incrustado no semi-árido nordestino e ver como aquela senhorinha toca uma vida cheia de sabedoria e significado num lugar onde ter água potável tem mais valor do que o sinal do 4G. Via de regra, o que realmente importa está nesses lugares.

Viajar para mim é isso, um convite à beleza da vida que acontece a cada fração de segundo e uma baita oportunidade de rever nossas escolhas de vida e desenvolver respeito e consideração pelas escolhas dos nossos parceiros de jornada.

Adonis Carvalho

Escrevo uns rabiscos desde que me lancei na aventura de procurar me entender neste mundo, prática que me fez sobreviver aos intervalos tediosos das aulas de Cálculo na Faculdade de Engenharia. Vi toda minha vida se transformar desde que decidi dar o primeiro tímido passo rumo a uma dieta alimentar saudável. Meu interesse pela culinária natural é uma reação aos sustos que tomava quando passei a ler com atenção os rótulos dos ultra processados multicoloridos dos supermercados. Acredito na força e na beleza da vida e amo profunda e verdadeiramente este planeta Terra.

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