Comunicação Não Violenta: Sustentabilidade Social

Como viajante há mais de uma década, já dormi em diferentes lugares. Os mais exóticos foram:
– na rede durante uma longa viagem de barco pela Amazônia e na casa de nativos enquanto fazia a travessia a pé dos Lençóis Maranhenses;
– numa barraca totalmente úmida a mais de 4mil metros de altitude durante a trilha Inca no Peru (sem contar os numerosos acampamentos em diferentes partes do Brasil, América do Sul e Europa debaixo de temporais e vento forte – incluindo o da Patagônia);
– no carro durante a travessia dos Picos da Europa, na Espanha;
– nos abrigos de voluntários fornecidos pelas ecovilas (alguns com o colchão direto na grama infestada de carrapatos);
– nos sofás gentilmente oferecidos pelos anfitriões do Couchsurfing;
– espremida no banco de vários ônibus cruzando fronteiras durante a noite para economizar com hospedagem;
– congelando no banco de algum aeroporto; e
– confortável na segunda classe de uma cabine de trem russo, durante 20 horas de viagem, de onde escrevo este texto.
Sou uma pessoa diurna, no máximo às 23h já estou me recolhendo para o início de uma boa noite de sono, preferencialmente, com oito horas ininterruptas.
Tenho o sono leve e por isso uso frequentemente protetores auriculares. E, para dificultar, não consigo dormir com nenhum sinal de iluminação. Chatinha, eu sei. Mas quem não tem manias?
Fazia tempo que eu não dormia em hostel (ou albergue), algo muito comum na minha época de mochileira durante as férias. As minhas últimas recentes experiências foram na Cracóvia (em junho) e em São Petersburg (em julho) e um fato me chamou atenção: há muita gente morando nestes locais cujo custo com acomodação é mais baixo.
Mas o que tudo isso tem a ver com o tema principal do texto: Comunicação Não Violenta? Já chego lá…
No meu entendimento, hostels foram criados para atender aos viajantes e não residentes fixos. Por que penso desta maneira? Porque quando residimos em algum lugar, geralmente nos sentimos confortáveis e pertencentes aquele ambiente e deixamos nossas manias fluírem naturalmente, infringindo, por consequência, alguns acordos coletivos cuja grande maioria dos viajantes tem consciência e bom senso. Olha aí o início de um conflito!
Hostels são pequenas comunidades temporárias com mudança constante dos membros. Compartilhamos quartos, banheiros, áreas coletivas e nossas histórias. E onde tem comunidade, tem conflito. Afinal, somos diferentes.
Minhas duas recentes experiências em quartos compartilhados com residentes fixos em albergues não foram tão confortáveis. Por sentirem-se em casa, eles não respeitavam os acordos de convivência, traziam amigos visitantes para dentro do quarto como se estivessem na sala de estar de suas casas, além de ocuparem grande parte do espaço com excesso de bagagem.
Na última estadia durante quatro noites em São Petersburg, compartilhei o quarto com seis pessoas: dois residentes fixos (um americano e um sérvio) e quatro viajantes (uma indonésia e três marroquinos). Só consegui dormir bem uma noite. Nas outras três, foi um entre e sai de gente que não pertencia aquele quarto, uma “bateção” de portas, um acender e apagar de luzes constantes e um falatório sem fim durante toda a madrugada. O americano e o sérvio estavam em casa, vivendo suas rotinas, assistindo a filmes, comendo e bebendo a noite toda. Enquanto eu e os demais viajantes estávamos cansados de explorar a cidade durante o dia e só precisávamos dormir para continuar nossa jornada no dia seguinte.
Não preciso dizer o quanto fui ficando irritada com esse cenário, né? Até que, no auge da fúria, tive um click e me lembrei do fantástico Marshall Rosenberg, autor do livro e metodologia Comunicação Não Violenta (CNV), que diz que “por trás de todo comportamento existe uma necessidade”.
Comecei a me perguntar qual era a minha necessidade naquele momento e a aplicar os princípios básicos que aprendi no livro e em alguns treinamentos, observando os fatos e meus sentimentos (sem julgamento), apresentando claramente minha necessidade e pedido.
Enquanto o sérvio e sua amiga visitante estavam revisando algo no computador às 23h (meu limite), interrompi calmamente dizendo: “Com licença, amanhã preciso acordar cedo para pegar um trem e estou necessitando dormir neste momento. Sinto-me desconfortável com o ruído e a iluminação e gostaria de saber que horas vocês estão planejando finalizar este trabalho.”
Para a minha surpresa, eles reagiram muito positivamente, com empatia e simpatia, me pedindo desculpas inclusive. Saíram na mesma hora do quarto e continuaram a revisão na área coletiva.
Por que estou compartilhando essa simples experiência? Porque a minha reação inicial foi ficar irritada e julgar os “sem-noção” que por sinal não tinham ideia da minha necessidade de dormir e dificuldade em cair no sono com ruído e iluminação (o problema era meu e não deles, o deles era finalizar a revisão). E ao invés de explodir e abordá-los de forma agressiva (que por alguns instantes passou pela minha cabeça, confesso), eu me comuniquei de forma não violenta e tive a minha necessidade atendida. Eeeee! A paz reinou no hostel! \o/
A CNV nos convida a sempre enxergarmos nossos relacionamentos com “lentes sociais”, tendo a consciência de que todas as necessidades humanas importam (a dos viajantes como eu que precisam descansar e a dos residentes que fazem dos albergues suas casas, por exemplo).
Este artigo sobre “CNV: mudando a consciência, os relacionamentos e o sistema” diz que praticantes com mindset intercultural mais avançado veem isso como um pedindo para fornecer às pessoas as ferramentas e suporte necessários para garantir que suas necessidades de fato sejam atendidas com cuidado. Um praticante de CNV sem essa consciência pode colocar em pé de igualdade ambas as necessidades, sem reconhecer as diferenças de impacto e acesso ao poder e, assim, involuntariamente, reforçar aspectos negativos das normas de relacionamentos tradicionais.
E você? Já tinha ouvido falar em CNV? Se sim, já colocou em prática em algum tipo de relacionamento? Adoraria aprender com sua experiência também.
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Vanessa Tenório

Carioca, viajante, amante da natureza e das crianças, educadora designer de sustentabilidade e autora do blog Voe Nessa, encerrei um ciclo de 22 anos de carreira no sistema corporativo para dar volta ao mundo sozinha, pesquisando e desenhando uma Nova Educação para a Sustentabilidade. Meu planejamento é explorar os cincos continentes através da imersão em escolas inovadoras e comunidades sustentáveis e co-criar uma escola gratuita quando voltar ao Brasil.

2 comentários em “Comunicação Não Violenta: Sustentabilidade Social

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