Agrotóxicos: Veneno no prato

Nos últimos dias muito se falou sobre a PL do Veneno, Projeto de Lei 6299/02 que foi aprovado pela Câmara dos Deputados em Brasília na calada da noite de 25 de Junho, mesmo sob protestos e manifestações contrárias de ativistas ambientais, o Greenpeace, institutos e órgãos públicos como Fiocruz, INCA, Ministério da Saúde, ANVISA, Ministério do Meio Ambiente, além de figuras públicas e pessoas anônimas da sociedade civil via petição pública. Importante observar que, na noite em que a PL foi aprovada, a comissão especial da Câmara era formada por 26 deputados, sendo que 20 destes fazem parte da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) ou apenas “Bancada Ruralista”, que reúne os parlamentares ligados ao Agronegócio. Outro ponto a destacar é que o autor inicial desta PL feita em 2002 é o atual ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o senhor Blairo Maggi, proprietário do Grupo Amaggi, que opera no topo do Agronegócio no Brasil, atuando na exportação de soja, na pecuária, no transporte logístico e na produção de energia elétrica para o setor.

Dentre as mudanças propostas na lei está a alteração do termo “agrotóxico” para “defensivo fitossanitário” e outras que visam facilitar e aumentar a abrangência do uso dos agrotóxicos no país, como acabar com a sistemática atual de avaliação de uma novo defensivo sintético, que requer aprovação prévia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, do Ibama (Ministério do Meio Ambiente) e da ANVISA (Ministério da Saúde). Caso estas alterações entrem em vigor, o único órgão a aprovar o uso de agrotóxicos será o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (isso mesmo, o mesmo Ministério que hoje é presidido pelo original autor dessa PL).

O cenário montado acima é, na verdade, um artifício em benefício exclusivo do setor do Agronegócio – o único que ainda defende o uso dessas substâncias químicas prejudiciais ao meio ambiente e à nossa saúde. As alterações propostas seguem uma direção totalmente oposta às tendências mundiais que visam diminuir e a médio prazo abolir o uso de agrotóxicos. Nossos representantes políticos ignoram resultados de pesquisas científicas que são cada vez mais assertivas na associação do uso e consumo de agrotóxicos a doenças como câncer, distúrbios hormonais e danos no aparelho reprodutor, e ainda à contaminação do solo, da água, dano à biodiversidade e aumento da emissão de gases do efeito estufa (GEE), que é diretamente associado aos efeitos globais de mudança climática.

O uso de agrotóxicos no alimento nosso de cada dia

Caso você esteja imaginando que isso não afetará muito o seu dia a dia, infelizmente está bem enganado. Desde 2008 o Brasil é o líder mundial no uso de agrotóxicos e o mérito desta posição não pode ser atribuído apenas ao setor do Agronegócio e sua produção de commodities como soja e milho. Os agrotóxicos também são largamente aplicados na produção do nosso alimento, inclusive por pequenos produtores familiares que plantam as verduras e legumes que chegam ao nosso prato.

A intensificação do uso dos agrotóxicos no Brasil se deu nas décadas de 60 e 70, durante a ditadura militar, através de um massivo incentivo do Estado para instalação de empresas multinacionais fabricantes desses produtos e das campanhas de assistência técnica aos agricultores visando ao estímulo do uso de agrotóxicos na sua produção. Infelizmente isso permanece até hoje, salvo intervenções de associações ligadas à agroecologia e à produção orgânica. O modelo de negócio existente e ensinado por aqui é totalmente dependente dos químicos sintéticos produzidos por multinacionais que ainda recebem [MUITO] incentivo tributário e dominam [para não dizer monopolizam] a agricultura mundial – patenteando e modificando geneticamente sementes, produzindo herbicidas e fertilizantes químicos e fazendo do produtor um eterno dependente de seus produtos.

Aplicação intensa de agrotóxicos em cultivo para alimentação humana

O produtor sem maiores instruções e estudo não questiona ou duvida dos conselhos dados pelo dono da loja de produtos agrícolas da região e/ou pelo agrônomo que presta assistência técnica financiada pelo fabricante do agrotóxico. Ainda há o incentivo do banco, que só fornece empréstimo financeiro ao produtor caso ele apresente um plano de uso de artifícios sintéticos para “garantir” sua produção e viabilizar o retorno do montante investido.

Mas seria o uso de agrotóxico nossa única saída?

Diante de um sistema tão articulado pode vir a dúvida se a agricultura sustentável seria viável para alimentar toda a população do planeta. Felizmente a resposta é sim, como qualquer um pode constatar ao ler o completo estudo publicado pela ONU em 2013, intitulado “Wake up before it is too lateMake agriculture truly sustainable now for food security in a changing climate” que em tradução livre quer dizer “Acorde antes que seja tarde demais – Torne a agricultura verdadeiramente sustentável agora para segurança alimentar em um clima em mudança”.

Desta publicação posso destacar as seguintes mensagens:

  • O mundo precisa de uma mudança de paradigma no desenvolvimento agrícola: da “revolução verde”1 para “intensificação ecológica”: Isso implica numa rápida e significativa mudança da agricultura convencional, baseada na monocultura e com o alto consumo e dependência de insumos externos de produção industrial, para a aplicação do mosaico sustentável, com sistemas de produção regenerativos que também promovem um aumento considerável da produção de produtores de pequena escala. Precisamos direcionar o gerenciamento agrícola do padrão linear para o holístico, que reconhece que o agricultor não é apenas um produtor de insumos agrícolas, mas também o gestor do sistema agroecológico, que fornece diversos insumos e serviços de bem comum (ex. água, solo, beleza cênica, energia, biodiversidade e recreação).
  • Elementos e pontos importantes para a transformação da agricultura:- Aumento da taxa de carbono do solo e maior integração entre culturas e produção pecuária e um aumento da integração de árvores (agrofloresta) com a vegetação nativa;Artigo recomendado: Partiu, feira!– Redução da emissão de gases de efeito estufa na produção pecuária;

    – Otimização do uso de fertilizantes orgânicos e inorgânicos, através do fechamento de ciclos na agricultura;

    – Redução do desperdício na cadeia de produção de alimentos

    Artigos recomendados: 

    O Comércio Justo começa com você!

    Partilha de alimentos na Alemanha

    Veja esta receita com aproveitamento total dos alimentos, que também apresentado um vídeo que ilustra o real problema da fome no mundo: distribuição e desperdício: 

    Creme de abóbora com couve SEM DESPERDÍCIO!

    – Mudança dos padrões de dieta para um consumo de alimentos “amigos do clima”.

De modo geral, o estudo é categórico ao enfatizar que o atual modelo agrícola não foi e não será responsável pela erradicação da fome do planeta, a “revolução verde” nos trouxe enormes problemas ambientais, sociais e de saúde – isso inclui a pecuária e o atual padrão dietético baseado no alto consumo de proteínas de origem animal. Ainda deixa claro que a agricultura deve caminhar para a produção consorciada, valorizando a diversidade de culturas num mesmo ambiente, como o ocorrido no sistema agroflorestal, bem como incentivar práticas agroecológicas e a produção orgânica tradicional. Tópicos que destacam o gerenciamento e olhar holístico da propriedade, visando o fechamento de todos os ciclos como o de nutrientes, água e resíduos, me deixam com mais certeza de que a Permacultura é a saída para a regeneração do nosso planeta.

Leia o estudo da ONU na íntegra aqui: http://unctad.org/en/PublicationsLibrary/ditcted2012d3_en.pdf

1 A Revolução Verde é um movimento iniciado em 1950 com o propósito de intensificar a produção agrícola através do desenvolvimento de sementes, pesticidas / agrotóxicos, fertilização química e mecanização do plantio e colheita.

Charlene Andrade

Como uma autêntica geminiana, a curiosidade é o que me move. Engenheira mecânica de formação, venho atravessando um processo de transição e renascimento, a partir do qual floresceram a vegetariana, a permacultora, a pesquisadora em agricultura sustentável e ambiental e a produtora de cosméticos naturais. Sentindo que era necessário partilhar esse belo caminho, recentemente dei vida, literalmente, a uma das minhas paixões e criei a Vida Biocosméticos, espaço dedicado ao mundo da cosmética artesanal em respeito ao meio ambiente, aos animais, ao comércio justo, à saúde do nosso corpo e de Gaia – Mãe Terra.

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