A greve dos caminhoneiros e a Segurança Alimentar

Por conta do meu mestrado em Engenharia de Biossistemas, passei boa parte do último final de semana pesquisando sobre a temática da Segurança Alimentar e Nutricional. Quando me vi imersa num mundo de valiosas informações, senti o dever de levar este tema para fora do universo acadêmico, sobretudo devido à grande relação que ele tem com os últimos acontecimentos ocorridos em nosso país: a greve dos caminhoneiros e o consequente desabastecimento alimentar das cidades.

O caos dos dias de paralisação deixou evidente a fragilidade do sistema segundo o qual estamos organizados como sociedade. Bastou apenas a manifestação (totalmente legítima) de uma classe de trabalhadores para parar o país e deixar a maioria das cidades a mercê do desabastecimento de combustível, alimentos e outros insumos essenciais. Deixando um pouco de lado a importante discussão sobre a nossa matriz de transportes baseada majoritariamente em rodovias, vou me ater aqui ao debate sobre a nossa Segurança Alimentar.

Todos nós sentimos imediatamente a falta de verduras, frutas e legumes nos mercados e feiras das cidades e isto nos mostra o quanto estamos vulneráveis no quesito Segurança Alimentar – assunto relacionado ao ODS 2 (1) Fome Zero e Agricultura Sustentável – que consiste exatamente na “realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras da saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis”(2). Bem lindo na teoria, porém o que vemos na prática aqui foi exatamente o oposto; nossa comida vem de muito longe e gasta-se bastante combustível fóssil para que ela chegue às nossas casas. Bastou apenas um elo na logística de abastecimento deixar de funcionar, para que todos sentíssemos as consequências de imediato.

Embora seja claro que a organização de distribuição alimentar não seja das melhores e que o governo não está garantindo este direito básico à população, você tem consciência do que a gente como sociedade civil deve reivindicar e fomentar para que este cenário se modifique? A resposta é simples: o incentivo às hortas comunitárias e à agricultura familiar nas zonas urbanas e periurbanas. Precisamos ocupar espaços ociosos da cidade para produzir o alimento mais perto do consumidor, respeitando a biodiversidade, o clima e a cultura local. Esta não é uma afirmação pessoal, mas sim uma recomendação da FAO(3) para todos os países do globo. A Organização alerta que no ano de 2050 aproximadamente 66% de toda população mundial viverá em áreas urbanas, agravando os problemas de pobreza e desemprego e afetando diretamente a garantia da Segurança Alimentar e Nutricional da grande fração da população que depende do poder monetário para aquisição de alimentos. Neste contexto, a FAO considera que a Agricultura Urbana e Periurbana (AUP) deva ser parte integrante do sistema de produção agrícola, com ênfase em alimentar as cidades, criando emprego e gerando renda para a população vulnerável dessas áreas. Também reconhece que o grande desafio é integrar a AUP em políticas e estratégias como parte do desenvolvimento sustentável dentro de uma estrutura mais ampla do planejamento de desenvolvimento urbano, com gestão do uso de terra e água, reciclagem de resíduos urbanos e garantia de segurança do produto. É claro que para isso acontecer é imprescindível o investimento na capacitação da população para garantir o uso de práticas agroecológicas e, por consequência, o correto manejo da terra e dos recursos naturais sem a utilização de agroquímicos. Assim, a população se favorece com a disponibilidade de alimentos frescos, de melhor qualidade, sem o uso de agrotóxicos, com menor demanda de deslocamento (menor emissão de CO2), menor perda de produção pós colheita e ganho de mais áreas verdes nas cidades.

Construir cidades mais resilientes é a chave para o futuro do desenvolvimento urbano

O atual panorama mundial aponta que os países desenvolvidos estão à frente dessas práticas. Hortas comunitárias já são uma realidade na Europa, Canadá e EUA. Este último país, inclusive, conta com dois grandes exemplos de sucesso nas cidades de Detroit e no Brooklyn, bairro de Nova Iorque.

Ainda acredito que o Brasil e demais países da América Latina só não se encontram no mesmo patamar devido à falta de incentivos e políticas do poder público. No Brasil, muitos desses movimentos surgem de um grupo de pessoas interessadas, às vezes com apoio de ONGs, mas que contam pouco com a esfera política, que deveria assumir sua autoridade de desenvolver e monitorar programas em prol do desenvolvimento sustentável e saúde integral de sua população.

Para finalizar, citarei parte do que já é realidade na cidade do Rio de Janeiro (importante lembrar que a grande maioria dessas organizações recebem voluntários). Já pensou tirar uma manhã de sábado ou do domingo para aprender e aprimorar a arte do cultivo de alimentos? Tem algum terreno ocioso no seu bairro onde poderia juntar vizinhos e firmar um movimento similar? Quem sabe incentivar hortas nas escolas, universidades ou no seu condomínio? Vamos abraçar novas possibilidades para viver, na íntegra, em comUNIDADE!

– Horta de General: na Rua General Glicério – Laranjeiras

– Harmonicanto: no morro do Cantagalo – Copacabana

– Parque Ecológico Sitiê: no alto do morro do Vidigal – Leblon

– Favela Orgânica: no morro da Babilônia – Leme

– Horta das Artes: na Cidade das Artes – Barra da Tijuca

– Horta comunitária do Grajaú: na praça Edmundo Rego – Grajaú

– Movimento Planta na Rua que organiza mutirões em diversos bairros da cidade: https://www.facebook.com/plantanaruarj/

– Mutirão Olho D’água com espaço agroflorestal nos Arcos da Lapa: https://www.facebook.com/carirurb/ e https://www.facebook.com/CarpeProjetosSocioambientais/

1) ODS são no total de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável o qual a União das Nações Unidas (ONU) estabeleceu metas para serem cumpridas até 2030.

2) Conceito do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional < http://www4.planalto.gov.br/consea/acesso-a-informacao/institucional/conceitos>

3) FAO é a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

Charlene Andrade

Como uma autêntica geminiana, a curiosidade é o que me move. Engenheira mecânica de formação, venho atravessando um processo de transição e renascimento, a partir do qual floresceram a vegetariana, a permacultora, a pesquisadora em agricultura sustentável e ambiental e a produtora de cosméticos naturais. Sentindo que era necessário partilhar esse belo caminho, recentemente dei vida, literalmente, a uma das minhas paixões e criei a Vida Biocosméticos, espaço dedicado ao mundo da cosmética artesanal em respeito ao meio ambiente, aos animais, ao comércio justo, à saúde do nosso corpo e de Gaia – Mãe Terra.

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