6 coisas que uma viagem ao Pará me ensinou

Tudo começou no final do ano passado, durante o balanço de 2017 e a projeção de 2018 que Thiago e eu fazíamos para colocar nossas ações e pensamentos num rumo cada vez mais alinhado com a vida que queremos experimentar por aqui. Propus uma brincadeira: 4 destinos dentro do Brasil anotados em papeizinhos, metade escolhida por mim e a outra metade pelo Thiago. Sacudi os papéis entre minhas duas mãos e ele escolheu um. Quando ele leu “Alter do Chão”, eu ri internamente da persistência que têm as coisas que devem acontecer no seu próprio tempo independente dos dribles que a gente tente dar.

Não sei determinar ao certo quando surgiu em mim o desejo de estar no Pará. Sentia como que chamado para abraçar e ser abraçado por essa terra e seu povo. Nesses dias em que passei embalado pela correnteza do Rio Tapajós finalmente pude ouvir atento o que essa voz queria me dizer:

  • Planeje o essencial e depois curta o balanço das ondas

Eu sou aquele que acredita que tudo na vida pode e deve ser colocado numa planilha do Google Sheets. Já melhorei bastante, mas ainda hoje tenho dificuldades em lidar com o imprevisível. Nesta viagem, Thiago e eu planejamos o essencial, sem o qual a viagem nem ocorreria, como passagens áreas, trajetos internos e hospedagem, pesquisamos mais ou menos os lugares que gostaríamos de visitar, mas de resto a proposta era seguir o que nos parecesse mais interessante quando estivéssemos em terras paraenses, já aclimatados ao local e pegando dicas dos próprios nativos.

Esta é uma baita evolução para quem já chegou a planejar uma viagem com hora de entrada e saída de cada ponto turístico. É claro que este é um cenário em que as chances de frustração e irritação são enormes, já que a vida real não é nem nunca será organizadinha do jeito que a gente quer. Depois que um planejamento básico para assegurar nossa integridade e mínimo de conforto tenha sido feito, é legal e mais divertido topar o desafio de lidar com as surpresas do acaso.

Fizemos este experimento no Pará e, olha, não quero outro tipo de viagem. Esta é definitivamente uma lição que podemos tomar para lidar com esta vida com mais leveza.

O barquinho está pronto pra navegar até a Ilha do Amor
  • Encontre maneiras de tornar cada momento agradável

Durante nossa estadia em Alter do Chão, como estávamos sem carro e queríamos passar o maior tempo possível admirando a grandeza do rio Tapajós, optamos por fazer todas as locomoções por via fluvial. Por isso, tínhamos que permanecer longas horas sentados num barco, recebendo os respingos de uma ou outra ondinha mais revoltada, até chegarmos ao nosso destino.

Se no primeiro dia a excitação da novidade deixava o tédio de escanteio, depois, com a vista já acostumada à geografia do lugar, o tempo de permanência no barco passou a se estender por conta do efeito psicológico.

Como se entregar ao tédio não é uma opção que deva ser considerada numa viagem de férias, optamos por assumir a responsabilidade de tornar o trajeto agradável, seja mirando o horizonte e mergulhando em reflexões profundas ou escavando músicas dos anos 80 para berrar aos quatro ventos.

Braços abertos sobre o Tapajós
  • Precisamos de muito pouco

Essa frase já se tornou um clichê que se repete sempre que as coisas neste mundo material parecem desandar. Mas, como todo clichê, precisa ser lido com a devida dose de relativização. Isso porque a definição do que é muito pouco varia em escala infinita de uma pessoa para outra. Com o passar do tempo e as facilidades da vida moderna, vamos, mesmo sem perceber, aumentando o conjunto dos itens que consideramos o básico pra viver. É natural que neste processo mais itens saiam da caixinha dos supérfluos para a gaveta dos essenciais do que o inverso.

Durante esta viagem nos deparamos com verdadeiros mestres da arte da simplicidade. Pessoas vivendo uma vida genuinamente digna mesmo (e talvez por isso) sem acesso à última geração do iPhone. Visitamos essas pessoas em suas casas simples e aconchegantes, que se alimentam de maneira simples e saudável e realmente adotam a simplicidade em cada aspecto de suas vidas. Certamente isso serviu para eu recalibrar minha caixinha de itens de primeira necessidade.

Nossa hospedagem de madeira e palhas em uma noite à beira do Rio Tapajós
  • Conheça a história dos seus antepassados

Andar pelas ruas de Alter do Chão e percorrer o curso do rio Tapajós é sinônimo de imersão cultural contínua e diversa. Cada morador com quem conversávamos demonstrava uma bonita conexão com o rio e a floresta e dava uma verdadeira aula sobre exemplares da fauna e da flora, da culinária e do artesanato, tudo num quase intacto tupi-guarani. Termos como tacacá, tucupi, jambu, buriti, tucumã, açaí e cupuaçu marcaram presença forte no nosso vocabulário e, pra ser sincero, já sinto falta de utilizá-los com tanta frequência.

Era comovente ouvir cada morador falando com tanta propriedade e estima sobre sua própria história. Este domínio e conhecimento atribuem a tudo que eles fazem e farão um senso de dignidade, solidez e tranquilidade.

Cesto maravilhoso feito da palha do tucumã, uma palmeira que abunda na região, e colorido com corantes 100% naturais
  • A arte de fato nos ajuda a viver melhor

Este ensinamento está intimamente ligado ao anterior. Durante a viagem pude ver na prática como a arte nos ajuda a atravessar a dureza e o caos do cotidiano. Em todo canto havia música e dança em meio a artesãos manipulando sementes, palhas e pedras da região para a confecção de objetos de decoração e adornos diversos.

Na nossa primeira noite em Alter do Chão, fomos agraciados com uma apresentação ao ar livre de carimbó, ritmo musical amazônico, em que meninas e mulheres lindíssimas balançavam seus vestidões coloridos ao som produzido pela banda de carimbozeiros montada num palco próximo. Ficamos muito emocionados com a beleza e poesia da música e da dança amenizando a crueza da poeira levantada do chão de terra.

Muita emoção na roda de carimbó
  • Quem disse que pra ter férias bem aproveitadas temos que viajar para o exterior?

O que é mais impressionante em tudo isso é que este mundo novo pra nós de paisagens, palavras, comidas, música e dança encontra-se dentro do nosso Brasil. Ficamos tão imersos nessa bolha sul-sudeste que predomina nas grandes mídias que, mesmo sem intenção, negligenciamos a riqueza cultural e natural que reina no eixo norte-nordeste.

Muitas vezes, quando pensamos em viajar pelo Brasil nos limitamos às (maravilhosas) praias do Nordeste ou, numa análise rápida da estimativa do custo de uma viagem nacional, acabamos optando por viajar para o exterior. Quando dizíamos para alguns conhecidos que iríamos passar férias no Pará, frequentemente perguntavam se tínhamos parentes morando lá, como se esta fosse a única razão para fazermos esta escolha.

Esta viagem confirmou nossas suspeitas: o Brasil é muito mais do que o maravilhoso litoral desse Oceano Atlântico. Há chapadas, rios, florestas, cachoeiras, cerrados, trilhas, mundos inteiros e novos exibindo sua magnificência neste exato momento. Vamos desbravá-lo e preservá-lo!

Olha isso, meu Brasil!

Ainda estamos inebriados da imersão de afeto que experimentamos no Pará. É difícil voltar à rotina quando retornamos de uma viagem tão legal e intensa, não é mesmo? E você, tem uma experiência de viagem incrível pelo Brasil pra compartilhar? Conta aí, estamos loucos para começar a planejar a nossa próxima aventura em terras tupiniquins! 🙂

Adonis Carvalho

Escrevo uns rabiscos desde que me lancei na aventura de procurar me entender neste mundo, prática que me fez sobreviver aos intervalos tediosos das aulas de Cálculo na Faculdade de Engenharia. Vi toda minha vida se transformar desde que decidi dar o primeiro tímido passo rumo a uma dieta alimentar saudável. Meu interesse pela culinária natural é uma reação aos sustos que tomava quando passei a ler com atenção os rótulos dos ultra processados multicoloridos dos supermercados. Acredito na força e na beleza da vida e amo profunda e verdadeiramente este planeta Terra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *